Encontrar um animal silvestre na natureza é raro. A maioria é discreta, muitos são noturnos e quase todos percebem a presença humana antes de serem vistos. Por isso o trabalho de campo depende tanto de vestígios: pegadas, fezes, pelos, restos de alimento, arranhões em troncos e tocas. A partir desses sinais é possível saber quais espécies ocupam uma área sem nunca avistá-las.
A pegada é o vestígio mais usado porque combina duas informações valiosas: a forma da pata e o modo de andar. Com um pouco de prática, dá para separar grupos inteiros de animais só pelo desenho deixado na lama ou na areia.
Felinos: redondas e sem unhas visíveis
As pegadas de felinos brasileiros, como a onça-pintada, a onça-parda, a jaguatirica e o gato-do-mato, tendem ao formato arredondado, com quatro dedos marcados e uma almofada central larga. O detalhe que mais ajuda é a ausência de marcas de unhas: os felinos têm garras retráteis, que ficam recolhidas durante a caminhada normal.
O tamanho separa as espécies dentro do grupo. A pegada de onça-pintada é nitidamente grande e robusta, enquanto a de jaguatirica lembra a de um gato doméstico um pouco maior. Em terreno mole, a impressão fica mais profunda e larga, o que pode enganar quem se baseia só na medida.
Canídeos: alongadas e com unhas
Cães silvestres, como o lobo-guará, o cachorro-do-mato e o graxaim, deixam pegadas mais alongadas do que largas, com dedos mais juntos e marcas de unhas quase sempre visíveis, já que suas garras não se recolhem. A trilha também é diferente: canídeos costumam caminhar em linha mais direta e constante.
O lobo-guará tem um detalhe reconhecível: as pernas muito longas resultam em passos bastante espaçados para o tamanho da pegada. Quando a distância entre marcas parece grande demais para o tamanho da pata, vale considerar a espécie.
Cascos: duas metades bem separadas
Veados e porcos-do-mato deixam marcas em duas metades, resultado de dedos cobertos por casco. Em veados, o desenho é mais estreito e pontiagudo na frente. Em queixadas e catetos, tende a ser mais arredondado e largo, e é comum encontrar muitas pegadas juntas, porque esses animais andam em grupo.
A anta é um caso próprio e fácil de reconhecer: deixa três dedos bem definidos nas patas traseiras, um desenho que não se confunde com nenhum outro animal brasileiro de grande porte.
Outros vestígios que valem mais que a pegada
- Fezes: forma, tamanho e conteúdo indicam dieta. Restos de pelos ou ossos sugerem carnívoros; sementes inteiras sugerem frugívoros.
- Tocas: o diâmetro e o formato da entrada ajudam a distinguir tatus, tuco-tucos e outros escavadores.
- Marcas em troncos: felinos arranham para deixar sinal de território; tamanduás e primatas deixam marcas de outro tipo.
- Restos de alimento: cascas de frutos abertas de maneira característica indicam araras, macacos ou roedores.
- Pelos: ficam presos em cercas, galhos baixos e entradas de toca, e permitem identificação em laboratório.
Fotografe de cima, com luz lateral para realçar o relevo, e coloque ao lado um objeto de tamanho conhecido, como uma régua ou uma moeda. Sem referência de escala, uma foto de pegada perde quase todo o valor de identificação.
Cuidados no campo
Ler vestígios é uma atividade de observação, não de aproximação. Encontrar pegadas frescas de um animal de grande porte é motivo para manter distância e evitar seguir a trilha. Tocas nunca devem ser escavadas ou obstruídas, e ninhos não devem ser tocados.
Em unidades de conservação, o registro de vestígios costuma interessar às equipes de manejo. Informar a localização de uma observação, quando existe canal para isso, ajuda o monitoramento da fauna local.
No percurso de pegadas e características da plataforma, as perguntas trabalham justamente essa distinção entre grupos: o que é redondo e sem unha, o que é alongado e com unha, o que é casco e o que é dedo.
Fontes deste conteúdo
- Portal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ICMBio · Órgão federal de conservação Acessar a fonte
- Embrapa Pantanal Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária · Centro de pesquisa regional Acessar a fonte
- Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo MZ-USP · Museu e acervo científico Acessar a fonte
- Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira SiBBr / MCTI · Base nacional de dados de biodiversidade Acessar a fonte
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