O Pantanal é o menor bioma brasileiro em área e, ao mesmo tempo, o lugar do país onde é mais fácil observar grandes animais em liberdade. A explicação para esse contraste está em um único fator: o ciclo anual de inundação, conhecido como pulso das águas.
Como o ciclo funciona
A planície pantaneira recebe água das terras altas do entorno durante a estação chuvosa. Como o terreno é extremamente plano e a drenagem é lenta, essa água se espalha e permanece por meses, transformando campos em lâminas d'água rasas. Depois, aos poucos, escoa e evapora, e a paisagem volta a ser terrestre.
O resultado é um ambiente que alterna duas identidades. Durante parte do ano, funciona como um sistema aquático imenso; durante outra parte, como campo seco. A fauna local não apenas tolera essa alternância: depende dela.
Cheia: espalhar e reproduzir
Com a subida das águas, peixes deixam os rios e ocupam campos alagados, onde encontram alimento abundante e locais protegidos para desova. Muitas espécies realizam deslocamentos reprodutivos rio acima nesse período. Plantas aquáticas se multiplicam, e invertebrados aparecem em grande quantidade.
Para os animais terrestres, a cheia é o momento de se concentrar nas partes mais altas do terreno, as chamadas cordilheiras, faixas de solo elevado que permanecem secas e funcionam como refúgio. Ali se acumulam mamíferos de médio e grande porte enquanto a água não baixa.
Seca: concentrar e alimentar
A vazante inverte o quadro. À medida que a água recua, peixes ficam presos em baías, corixos e poças isoladas, formando concentrações extraordinárias de alimento. É nesse momento que jacarés se reúnem em grande número, que ariranhas encontram pesca fácil e que aves aquáticas como tuiuiús, colhereiros, garças e biguás se agrupam para se alimentar.
A previsibilidade dessa concentração explica por que o Pantanal é tão procurado por observadores de aves e por fotógrafos de natureza. Não é acaso: os animais estão respondendo a uma oferta de alimento que se repete todos os anos no mesmo período.
Em floresta fechada, a onça-pintada é praticamente invisível. No Pantanal, a vegetação mais aberta, a concentração de presas junto aos rios e o hábito de circular nas margens aumentam muito a chance de avistamento. A espécie não é mais abundante por sorte: encontra presas em densidade elevada, como capivaras e jacarés.
Espécies que definem o bioma
O tuiuiú, grande cegonha de colar vermelho, virou símbolo da região. O jacaré-do-pantanal é abundante e cumpre papel central na cadeia alimentar. A capivara, maior roedor do mundo, aparece em grupos numerosos perto da água. O cervo-do-pantanal, maior cervídeo da América do Sul, tem cascos adaptados ao terreno encharcado.
Entre as aves, a arara-azul-grande merece destaque. Depende de palmeiras específicas para alimentação e de árvores com ocos grandes para nidificar, combinação que a torna sensível à remoção de árvores antigas. Programas de conservação na região trabalham com ninhos artificiais e com proprietários rurais.
Ameaças ao ciclo
Como o Pantanal depende da água que vem das terras altas do entorno, alterações nessa região afetam a planície inteira. Assoreamento de rios, barramentos, uso intensivo do solo e mudanças no regime de chuvas modificam o momento e a intensidade da cheia, com efeito direto sobre reprodução de peixes e de aves.
Incêndios de grande extensão em anos de seca severa são outra pressão importante, com impacto sobre animais de movimentação lenta e sobre a vegetação que serve de abrigo. Manter o pulso das águas funcionando é, na prática, a principal medida de conservação do bioma.
Fontes deste conteúdo
- Embrapa Pantanal Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária · Centro de pesquisa regional Acessar a fonte
- Portal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ICMBio · Órgão federal de conservação Acessar a fonte
- Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil IBGE · Cartografia e estatística oficial Acessar a fonte
- Portal do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima MMA · Ministério Acessar a fonte
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