Migrar é diferente de simplesmente se deslocar. Migração é um movimento regular, repetido a cada ano ou em intervalos definidos, entre áreas distintas, geralmente para aproveitar alimento abundante ou condições favoráveis à reprodução. O Brasil está no caminho de muitas rotas migratórias, e os motivos que fazem esses animais partir ajudam a entender por que proteger apenas um trecho do trajeto não basta.
Por que migrar
Os principais motivos são alimento, clima e reprodução. Em regiões de clima frio, o inverno reduz a oferta de insetos e frutos, e as aves seguem em direção a áreas mais quentes. No mar, águas frias de altas latitudes são ricas em plâncton e sustentam grandes quantidades de alimento, mas águas quentes tropicais oferecem condições mais seguras para filhotes pequenos, com menos predadores e temperatura estável.
A migração custa muito caro em energia. Os animais acumulam gordura antes de partir, e muitos ficam semanas sem se alimentar. Por isso, a perda de locais de parada, onde descansam e comem durante a viagem, pode ser tão prejudicial quanto a destruição do ponto de origem ou do destino.
Aves migratórias
Cerca de uma centena de espécies de aves usam o Brasil como destino de inverno ou como parada, vindas do Canadá e dos Estados Unidos e, em menor número, do extremo sul do continente. Entre as mais conhecidas estão os maçaricos e batuíras, aves de beira de praia e de manguezal, que chegam a partir de agosto e setembro e partem de volta no início do ano seguinte.
Outras aves migram dentro do próprio continente: algumas espécies que se reproduzem no sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai se deslocam para o norte nos meses frios, e outras seguem o regime de chuvas e de frutificação. O monitoramento de áreas costeiras úmidas, lagoas e manguezais é fundamental para essas aves, e a rede de anilhamento coordenada por órgãos federais permite acompanhar trajetos ao longo dos anos.
Cientistas identificam aves migratórias por anilhas coloridas nas pernas e, em alguns casos, por pequenos transmissores. Ao encontrar uma ave anilhada, anote o código, o local e a data e comunique ao órgão responsável: cada registro ajuda a reconstruir rotas.
Baleias-jubarte no litoral
A baleia-jubarte é um exemplo de migração oceânica. No verão, alimenta-se em águas frias do Atlântico Sul, perto da Antártida, onde há grande oferta de krill. No inverno e na primavera, seguem para águas quentes do litoral tropical do Brasil, onde acasalam e as fêmeas dão à luz. A região do Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, é uma das principais áreas de concentração.
Os filhotes nascem sem camada espessa de gordura e precisam de águas calmas e quentes para ganhar força antes da viagem de volta. É também por isso que há regras sobre aproximação de embarcações: um barco que se aproxima demais pode separar mãe e filhote ou interromper o aleitamento.
Tartarugas marinhas
As tartarugas marinhas fazem uma migração de outro tipo: percorrem grandes distâncias entre áreas de alimentação e praias de desova. A fêmea retorna, depois de muitos anos, a uma região próxima à praia onde nasceu, comportamento chamado de fidelidade ao local de nascimento. Como o ambiente de desova precisa estar preservado ao longo de décadas, o monitoramento de praias é uma das ferramentas de proteção mais eficientes.
No Brasil, ilhas oceânicas, como o Atol das Rocas e Trindade, e trechos do litoral continental, como o Espírito Santo e o litoral norte da Bahia, são áreas importantes de desova de diferentes espécies. O Projeto Tamar acompanha essas áreas desde a década de 1980.
Como os animais se orientam
A navegação de longa distância usa várias pistas combinadas. Aves se orientam pelo sol, pelas estrelas, pela paisagem e pelo campo magnético da Terra. Tartarugas parecem usar o campo magnético para reconhecer regiões específicas do oceano. Baleias combinam memória, relevo do fundo marinho e correntes. Ainda há muito a descobrir sobre esses mecanismos, e novos estudos revisam o que se sabia há poucas décadas.
Ameaças ao longo do caminho
- Perda de áreas úmidas, praias e manguezais usados como parada ou destino.
- Poluição luminosa, que desorienta filhotes de tartaruga e aves noturnas.
- Colisões com embarcações, estruturas e redes elétricas.
- Emaranhamento em redes de pesca e ingestão de lixo plástico.
- Mudanças de clima, que alteram a época de chegada do alimento.
Por atravessar fronteiras, a conservação de espécies migratórias depende de cooperação entre países, e o Brasil participa de acordos internacionais com esse objetivo. Para o visitante de uma praia ou de uma lagoa, a contribuição mais direta é respeitar áreas de descanso e de desova, não perseguir animais e manter cães sob controle.
Fontes deste conteúdo
- Portal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ICMBio · Órgão federal de conservação Acessar a fonte
- Lista das aves do Brasil Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) · Referência taxonômica de aves Acessar a fonte
- Projeto TAMAR — tartarugas marinhas do Brasil Projeto TAMAR / ICMBio · Programa de conservação Acessar a fonte
- Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos CMA / ICMBio · Centro especializado de conservação Acessar a fonte
- The IUCN Red List of Threatened Species União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) · Lista vermelha global Acessar a fonte
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