Comportamento

Migração: aves, baleias e tartarugas que cruzam o Brasil

Todo ano, milhões de animais percorrem milhares de quilômetros e passam pelo território brasileiro. Entenda o que os move e como eles se orientam.

8 min de leitura Atualizado em 26 de outubro de 2026 Redação e revisão técnica da equipe editorial

Migrar é diferente de simplesmente se deslocar. Migração é um movimento regular, repetido a cada ano ou em intervalos definidos, entre áreas distintas, geralmente para aproveitar alimento abundante ou condições favoráveis à reprodução. O Brasil está no caminho de muitas rotas migratórias, e os motivos que fazem esses animais partir ajudam a entender por que proteger apenas um trecho do trajeto não basta.

Por que migrar

Os principais motivos são alimento, clima e reprodução. Em regiões de clima frio, o inverno reduz a oferta de insetos e frutos, e as aves seguem em direção a áreas mais quentes. No mar, águas frias de altas latitudes são ricas em plâncton e sustentam grandes quantidades de alimento, mas águas quentes tropicais oferecem condições mais seguras para filhotes pequenos, com menos predadores e temperatura estável.

A migração custa muito caro em energia. Os animais acumulam gordura antes de partir, e muitos ficam semanas sem se alimentar. Por isso, a perda de locais de parada, onde descansam e comem durante a viagem, pode ser tão prejudicial quanto a destruição do ponto de origem ou do destino.

Aves migratórias

Cerca de uma centena de espécies de aves usam o Brasil como destino de inverno ou como parada, vindas do Canadá e dos Estados Unidos e, em menor número, do extremo sul do continente. Entre as mais conhecidas estão os maçaricos e batuíras, aves de beira de praia e de manguezal, que chegam a partir de agosto e setembro e partem de volta no início do ano seguinte.

Outras aves migram dentro do próprio continente: algumas espécies que se reproduzem no sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai se deslocam para o norte nos meses frios, e outras seguem o regime de chuvas e de frutificação. O monitoramento de áreas costeiras úmidas, lagoas e manguezais é fundamental para essas aves, e a rede de anilhamento coordenada por órgãos federais permite acompanhar trajetos ao longo dos anos.

Anilhas e GPS

Cientistas identificam aves migratórias por anilhas coloridas nas pernas e, em alguns casos, por pequenos transmissores. Ao encontrar uma ave anilhada, anote o código, o local e a data e comunique ao órgão responsável: cada registro ajuda a reconstruir rotas.

Baleias-jubarte no litoral

A baleia-jubarte é um exemplo de migração oceânica. No verão, alimenta-se em águas frias do Atlântico Sul, perto da Antártida, onde há grande oferta de krill. No inverno e na primavera, seguem para águas quentes do litoral tropical do Brasil, onde acasalam e as fêmeas dão à luz. A região do Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, é uma das principais áreas de concentração.

Os filhotes nascem sem camada espessa de gordura e precisam de águas calmas e quentes para ganhar força antes da viagem de volta. É também por isso que há regras sobre aproximação de embarcações: um barco que se aproxima demais pode separar mãe e filhote ou interromper o aleitamento.

Tartarugas marinhas

As tartarugas marinhas fazem uma migração de outro tipo: percorrem grandes distâncias entre áreas de alimentação e praias de desova. A fêmea retorna, depois de muitos anos, a uma região próxima à praia onde nasceu, comportamento chamado de fidelidade ao local de nascimento. Como o ambiente de desova precisa estar preservado ao longo de décadas, o monitoramento de praias é uma das ferramentas de proteção mais eficientes.

No Brasil, ilhas oceânicas, como o Atol das Rocas e Trindade, e trechos do litoral continental, como o Espírito Santo e o litoral norte da Bahia, são áreas importantes de desova de diferentes espécies. O Projeto Tamar acompanha essas áreas desde a década de 1980.

Como os animais se orientam

A navegação de longa distância usa várias pistas combinadas. Aves se orientam pelo sol, pelas estrelas, pela paisagem e pelo campo magnético da Terra. Tartarugas parecem usar o campo magnético para reconhecer regiões específicas do oceano. Baleias combinam memória, relevo do fundo marinho e correntes. Ainda há muito a descobrir sobre esses mecanismos, e novos estudos revisam o que se sabia há poucas décadas.

Ameaças ao longo do caminho

  • Perda de áreas úmidas, praias e manguezais usados como parada ou destino.
  • Poluição luminosa, que desorienta filhotes de tartaruga e aves noturnas.
  • Colisões com embarcações, estruturas e redes elétricas.
  • Emaranhamento em redes de pesca e ingestão de lixo plástico.
  • Mudanças de clima, que alteram a época de chegada do alimento.

Por atravessar fronteiras, a conservação de espécies migratórias depende de cooperação entre países, e o Brasil participa de acordos internacionais com esse objetivo. Para o visitante de uma praia ou de uma lagoa, a contribuição mais direta é respeitar áreas de descanso e de desova, não perseguir animais e manter cães sob controle.

Fontes deste conteúdo

  • Portal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ICMBio · Órgão federal de conservação Acessar a fonte
  • Lista das aves do Brasil Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) · Referência taxonômica de aves Acessar a fonte
  • Projeto TAMAR — tartarugas marinhas do Brasil Projeto TAMAR / ICMBio · Programa de conservação Acessar a fonte
  • Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos CMA / ICMBio · Centro especializado de conservação Acessar a fonte
  • The IUCN Red List of Threatened Species União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) · Lista vermelha global Acessar a fonte
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