Plantas não se movem, mas precisam se reproduzir e ocupar novos lugares. Para isso, muitas contam com animais. Dois serviços se destacam: a polinização, que leva o pólen de uma flor a outra para que haja fruto e semente, e a dispersão, que carrega a semente para longe da planta-mãe, onde ela terá mais chance de germinar. Em florestas tropicais, uma parte muito grande das árvores depende de animais para uma ou outra dessas tarefas.
Polinização: quem leva o pólen
As flores evoluíram junto com seus visitantes. Cada tipo de polinizador tende a preferir um conjunto de características, e as plantas oferecem exatamente isso: cor, forma, cheiro e néctar adequados.
- Abelhas, entre elas centenas de espécies nativas sem ferrão, visitam flores de muitas cores e polinizam grande parte dos frutos e hortaliças consumidos.
- Beija-flores preferem flores tubulares, vermelhas ou alaranjadas, com néctar abundante e pouco perfume.
- Morcegos nectarívoros visitam flores claras, grandes e de abertura noturna, com cheiro forte. Muitos cactos e árvores do Cerrado e da Caatinga dependem deles.
- Borboletas e mariposas escolhem flores de formato estreito, com néctar no fundo, que alcançam com a tromba comprida.
- Besouros e moscas polinizam flores de odores peculiares, algumas de plantas bastante antigas.
A perda de polinizadores por uso excessivo de agrotóxicos, desmatamento e mudanças de clima é considerada uma preocupação global. Muitas culturas agrícolas, como café, maracujá, castanha e várias frutas, produzem mais e com melhor qualidade quando há polinizadores por perto.
Dispersão: quem leva a semente
Quando a semente cai ao pé da planta-mãe, enfrenta competição, sombra e pragas. Se for levada para longe, tem mais chance de sobreviver. Os animais fazem esse transporte de várias formas:
- Ao comer o fruto e liberar a semente nas fezes, longe do local, como fazem aves, macacos, antas, lobos-guarás e morcegos frugívoros.
- Ao enterrar sementes para guardá-las, e esquecê-las, como as cutias, roedores que contribuem para a regeneração de castanheiras e outras árvores de sementes duras.
- Ao carregar sementes grudadas ao pelo ou às penas, como ocorre com plantas de frutos espinhosos ou pegajosos.
- Ao arrastar sementes pela água, como peixes frugívoros da Amazônia, que se alimentam de frutos caídos na floresta alagada, entre eles o tambaqui.
A anta, o maior mamífero terrestre do Brasil, come grandes quantidades de frutos e percorre distâncias longas. Suas fezes, depositadas em locais variados, carregam sementes de muitas espécies, o que lhe valeu o apelido de jardineira da floresta.
Relações que parecem feitas sob medida
Algumas relações são tão específicas que a planta e o animal dependem um do outro. O caso mais conhecido é o das figueiras e das minúsculas vespas que as polinizam, em que cada espécie de figueira tem a sua vespa. No Cerrado, o fruto do pequizeiro é consumido por vários animais, que o dispersam, e suas flores são visitadas por morcegos e insetos. Quando uma peça desaparece, a outra pode ficar sem como se reproduzir.
Isso explica por que a caça de frugívoros grandes, mesmo em florestas que parecem intactas, pode alterar a composição de árvores com o passar de décadas. Sem animais para dispersar as sementes grandes, plantas de sementes miúdas, dispersas pelo vento, tendem a ganhar espaço, e a floresta muda sem que se note a olho nu.
Como ajudar polinizadores e dispersores
- Plantar espécies nativas que floresçam em épocas diferentes, garantindo alimento ao longo do ano.
- Evitar inseticidas em jardins e hortas, ou usá-los em horários e doses que minimizem o dano.
- Manter árvores frutíferas nativas em quintais e calçadas, oferecendo alimento a aves e morcegos.
- Respeitar ninhos de abelhas nativas e procurar um meliponicultor ou o órgão ambiental, e não destruí-los.
- Apoiar a restauração de matas ciliares e a criação de corredores de vegetação.
A mensagem central é que a conservação de uma floresta não depende só de proteger árvores. Depende de manter os animais que garantem que elas se reproduzam e se espalhem, da menor abelha ao maior mamífero.
Fontes deste conteúdo
- Portal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ICMBio · Órgão federal de conservação Acessar a fonte
- Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro JBRJ / MMA · Instituto de pesquisa Acessar a fonte
- Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia INPA / MCTI · Instituto de pesquisa Acessar a fonte
- Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira SiBBr / MCTI · Base nacional de dados de biodiversidade Acessar a fonte
- Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo MZ-USP · Museu e acervo científico Acessar a fonte
Correções são bem-vindas e recebem resposta. Veja como funciona a política de correções ou use a página de contato.